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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Francisca de Souza Silva, 48 anos, vive em uma casa de palafitas na periferia de Altamira, município a 830 quilômetros de Belém. Tem dois filhos e um marido que trabalha num garimpo ilegal às margens do Rio Xingu. A notícia do plebiscito chegou até Francisca graças à televisão, que, segundo ela, limita-se a anunciar a votação iminente. “Voto para não dividir o meu Pará”, diz a dona-de-casa. “Não sei quando vai ser o plebiscito nem o número que tenho que apertar na urna” - Fernando Cavalcanti
As diferentes faces do Pará

Em 11 de dezembro, os moradores das regiões que poderão ser transformadas nos estados de Tapajós, Carajás e no chamado “Pará remanescente” terão que decidir se querem ou não a divisão do estado. A decisão acarretará impactos que vão desde a repartição dos recursos federais até a alteração da identidade cultural dos paraenses. A pouco mais de uma semana do plebiscito, a população do interior do estado está completamente desinformada. Alguns sequer sabem que terão de fazer uma escolha daqui a poucos dias. A reportagem do site de VEJA percorreu os municípios de Altamira, Senador José Porfírio e Anapu, na região da tríplice fronteira entre os novos territórios e constatou: antes de pensar em dividir, o país deveria pensar em informar.
Cléo José Alves da Silva, secretário de Administração, Planejamento e Finanças de Senador José Porfírio, município de 14.000 habitantes às margens do Rio Xingu, mostra onde ficará a cidade caso sejam criados os estados de Tapajós e Carajás. Por ter sua área descontínua, cortada em duas por Anapu, Senador José Porfírio permaneceria metade no Pará remanescente e metade em Tapajós. Em março deste ano, ficou decidido que a cidade integraria a região tapajoense. O problema foi resolvido, mas a população continua em dúvida sobre o próprio endereço
Leonor da Silva Pereira, 51 anos, e sua mulher Maria Lúcia Gabriel da Silva, 46, moram em Pacajá, município de 40.000 habitantes a 600 quilômetros de Belém ─ que, com a divisão do estado, passaria a integrar Carajás . “Votamos ‘sim’ para a divisão”, diz Leonor. Maria Lúcia sofre com um mioma no útero. O agricultor gasta mais de 1 000 reais com exames e deslocamentos para Altamira e Novo Repartimento, cidades mais populosas. “Aqui nessa região não tem hospitais nem médicos. Os que existem só atendem quem está com a vela na mão, quase morrendo. Acho que com a criação dos novos estados, tudo vai melhorar”
A quinze dias do plebiscito que pode dar início à criação dos estados de Tapajós e Carajás, Crisleine Pacheco do Nascimento, 25 anos, vendedora em Senador José Porfírio, não sabia em que votar. A televisão trouxe a resposta. “Eu estava em dúvida sobre o meu voto, mas aí começaram a falar sobre o ‘não’ na televisão e eu decidi ir contra a divisão”. Ela assiste o único canal disponível para as populações que habitam as margens do Rio Xingu, a TV Liberal. O dono, Rômulo Maiorana Junior, declarou-se contrário à divisão
O radialista José Nilton da Silva, 41, mora há um ano em Anapu, município de 20.000 habitantes à beira da rodovia Transamazônica. “Desde que estou aqui, não vi ninguém dizer que é contra a criação de Carajás”. Segundo ele, os anapuenses costumam telefonar para a rádio para reclamar dos sistemas de saúde e educação do município, muito precários. “Aqui falta água e luz quase todos os dias. O povo acredita que os serviços e a distribuição de renda vão melhorar com a divisão do novo estado
O seringueiro Iolando Morais Pimentel, de 48 anos, vive com a família em uma casa de palafitas isolada às margens do Rio Xingu. Ele soube do plebiscito por meio do rádio, que frequentemente anuncia a votação. Francisco não sabe ao certo por que, mas acredita que seu voto faça sentido: “Fica do jeito que está”, afirma. “Se tiver divisão, só vai aumentar a quantidade de corruptos”. Faz sentido
Na viela de palafitas no centro de Altamira, pelo menos quatro pontos de venda de drogas funcionam incólumes. Os moradores estão completamente alheios ao plebiscito. Para eles, todas as esperanças de crescimento e desenvolvimento estão depositadas na construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a 40 quilômetros dali
Na região que abriga a tríplice fronteira entre Tapajós, Carajás e o chamado Pará remanescente, a exploração da madeira é uma das principais fontes de renda. Na fotografia, uma serraria funciona a todo vapor em Anapu, a cerca de 600 quilômetros de Belém. As toras de madeira foram cortadas com a autorização do Ibama, mas muitas pessoas continuam destruindo a floresta clandestinamente
Natural de Piripiri, no Piauí, Antonia Melo da Silva, 61 anos, mora em Altamira há 55 anos. Ela é a coordenadora do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, criado para combater a construção de hidrelétricas no Rio Xingu. Para ela, o problema da pobreza no interior do Pará está longe de ser resolvido com a divisão do estado. “O que falta é boa gestão”, diz. Segundo Antonia, o plebiscito sobre a criação de Carajás e Tapajós deveria abranger toda a população brasileira. “A estrutura dos novos governos vai sair dos bolsos dos contribuintes brasileiros”, afirma
O seringueiro Iolando Morais Pimentel, 48, e sua mulher Etelvina Batista Pimentel, 43, vivem há três anos em uma casa de palafitas isolada às margens do Rio Xingu. Souberam do plebiscito pelo rádio. As notícias, contudo, não esclarecem a importância da votação. “Se for Tapajós, a gente vai ter que trocar os documentos de identidade, né?”, pergunta Etelvina
A pecuária domina os arredores de Anapu ─ que depois da divisão passaria a integrar o estado de Carajás. Na região, é fácil perceber as consequências do desmatamento. Com as margens desmatadas, o Rio Xingu passou a ter o fundo forrado por bancos de areia trazida pelas chuvas. As montanhas de terra dificultam o tráfego de barcos e alteram o ecossistema. Caso a divisão do estado seja aprovada, a previsão é de que os desmatamentos aumentem na região
Na periferia de Altamira, onde só existem casas de palafitas, uma moradora aproveita o “verão” (como é chamada a época em que não chove) para estender as roupas ao sol. No chamado “inverno”, época das chuvas, que começa a partir de janeiro, a área de terra e mato que aparece na fotografia fica coberta por água e lama. Quando isso acontece, os poços artesianos que abastecem a vizinhança e os dejetos acumulados em fossas rasas se transformam num só lago, onde as crianças nadam livremente
Vigilante de uma construtora no bairro de São Domingos, em Altamira, Francisco das Chagas da Silva, 41 anos, impressiona pela sinceridade: “Aqui, todo mundo é leigo. Ninguém como votar no plebiscito. Ninguém nunca viu uma divisão de estado, nem sabe o que pode acontecer de bom ou ruim”
As periferias dos municípios da região central do Pará, como Altamira (foto), sofrem com o esquecimento. Por ali, a presença do poder público é quase nula. Não há água encanada, coleta de lixo nem de esgoto. A luz elétrica chegou há menos de um ano. Para os moradores, o plebiscito é mais uma invenção de políticos demagogos. “O povo aqui está saturado de políticos”, conta Elys Araújo, 35, predreiro. “Eles nunca cumprem as promessas”
Todos os dias, a dona-de-casa Ângela Maria, de 34 anos, mistura cloro à água retirada dos poços artesianos que abastecem seu bairro, na periferia de Altamira. A mistura lhe dá tranquilidade para matar a sede dos filhos. Questionada sobre a criação dos estados de Carajás e Tapajós, Ângela retruca com outra pergunta: “Por que querem dividir? É porque a verba vai ser grande?”

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politica com pimenta
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